
Segmentos A e B na caracterização genotípica e classificação molecular de IBDV
A Doença de Gumboro continua sendo um dos maiores desafios econômicos da avicultura mundial, causando imunossupressão severa pela destruição de linfócitos B imaturos na Bursa de Fabricius. O agente etiológico, o Vírus da Doença Infecciosa da Bursa (IBDV), pertence ao gênero Avibirnavirus e família Birnaviridae. É um vírus não envelopado, icosaédrico, que possui genoma de RNA fita dupla (dsRNA) bi-segmentado, designado como Segmento A e B.
Durante décadas, a classificação de IBDV baseou-se em características clínicas, antigênicas e patogênicas (clássico, variante, muito virulento e atenuado), tornando-se insuficiente para descrever sua diversidade genética emergente. A complexidade viral, marcada por mutações contínuas e recombinações, resulta em dificuldade para encaixar novos isolados em categorias fenotípicas (1).
Evolução na classificação - Genogrupos
A transição da classificação fenotípica para a molecular se baseou na identificação de polimorfismos na região hipervariável da proteína VP2 do capsídeo (hvVP2), principal determinante antigênico associado à resposta imune protetora. É um método confiável, por concentrar determinantes relacionados à antigenicidade, virulência e tropismo celular (1). No cenário nacional, a Simbios desenvolveu um método pioneiro baseado em RFLP (análise de polimorfismo de comprimento dos fragmentos de restrição), tornando-se referência para a avicultura brasileira ao permitir ampla e robusta classificação em grupos moleculares específicos, considerando a nossa realidade epidemiológica.
Nova padronização da nomenclatura molecular do IBDV foi proposta em 2017 por Michel & Jackwood (2), que propuseram a classificação em sete genogrupos (G1 a G7), demonstrando cepas, antes simplesmente classificadas como "variantes", como pertencendo, na verdade, a linhagens evolutivas distintas.
Nova evolução - Segmento B
Baseando-se em evidências de que a patogenia e a dinâmica evolutiva do IBDV não são determinadas exclusivamente por mutações na região hvVP2, mas também por alterações genéticas no gene VP1 (segmento B do genoma viral), Islam e colaboradores (2021) propuseram a genotipagem baseada na análise combinada dos dois segmentos genômicos. Foram gerados nove genogrupos para o segmento A: A1 (cepas virulentas clássicas e cepas clássicas atenuadas/vacinais), A2 (variante antigênica norte-americana), A3 (muito virulento), A4 (“distinct” ou dIBDV, predominantemente isolados na América do Sul), A5 (mexicano atípico), A6 (italiano atípico), A7 (australiano precoce), A8 (variante australiana) e A0 (sorotipo 2), mais cinco genogrupos para o segmento B: B1 (similar ao clássico), B2 (similar ao muito virulento), B3 (similar ao australiano precoce), B4 (polonês/tanzaniano) e B5 (nigeriano).
Paralelamente, Wang et al. (2021), observando que o gene VP1 dos isolados nvIBDV diferia do grupo clássico inicial B1, propuseram a subdivisão em B1a (clássico-like) e B1b (novas variantes chinesas), designando de forma precisa os perfis genômicos completos do vírus, como A2dB1b, para as novas variantes chinesas.
Uma das proposições mais significativas nestes trabalhos recentes é o papel de VP1 na virulência do IBDV, que, ao codificar a polimerase, define a eficiência da replicação e interfere na patogenicidade.
Vale destacar que a natureza bissegmentada do RNA viral permite o rearranjo gênico (reassortment), com trocas de segmentos inteiros entre cepas (ex: segmento A de vvIBDV com segmento B de cepa clássica). Estudos demonstraram que vírus com Segmento A de cepas muito virulentas (vvIBDV) e Segmento B de cepas não virulentas curiosamente apresentam patogenicidade reduzida. Por isso, a nova proposta de nomenclatura binomial torna-se muito interessante, especialmente para a vigilância epidemiológica molecular.
Vigilância epidemiológica
Classificações mais abrangentes poderão ser necessárias considerando a deriva antigênica e a emergência de novos genótipos. O monitoramento baseado na análise molecular dos dois segmentos genômicos amplia estratégias para mitigar o impacto do IBDV na avicultura moderna.
A harmonização das metodologias e nomenclaturas globais fortalece o diagnóstico de precisão, fundamentando estratégias de controle mais eficazes e sustentáveis.
A Simbios oferece soluções completas para o monitoramento do IBDV: kits de RT-qPCR NewGene IBDVAmp para detecção rápida e serviços laboratoriais como a tipificação por RFLP (grupos moleculares), a quantificação viral por RT-qPCR e o sequenciamento genético das regiões hvVP1 e VP2, garantindo o mapeamento completo dos desafios de campo.
Veja também:
IBDV G15 (Grupo Molecular 15) é Genogrupo 4 de Michel & Jackwood (2017)
Controle da Doença de Gumboro e a importância da análise molecular
Genótipo G4/Grupo Molecular 15 do IBDV: caracterização e evolução
Tipificação de IBDV: análise de prevalência de Grupos Moleculares (GM)
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