Armazenamento de reagentes e amostras: a qualidade que começa no freezer

No diagnóstico molecular, a conservação de amostras e reagentes em freezers e geladeiras representa uma etapa aparentemente simples, porém, crítica para a qualidade dos resultados. Trata-se de um cuidado básico da rotina laboratorial que, quando negligenciado, pode comprometer toda a cadeia analítica. Mesmo diante de metodologias avançadas, equipamentos sofisticados e ensaios validados, condições inadequadas de armazenamento afetam o desempenho do método, favorecem a degradação de ácidos nucleicos e introduzem variabilidade, antes mesmo do início da análise.

Por isso, o controle rigoroso de temperatura, a organização adequada dos materiais e a gestão eficiente de estoques não são apenas boas práticas operacionais, mas elementos essenciais da garantia da qualidade. É nessa etapa inicial, muitas vezes subestimada, que se estabelece a base para a confiabilidade, reprodutibilidade e segurança dos resultados.


Amostras clínicas: amostras da sanidade animal – como suabes, tecidos, fezes, fluidos e sangue – são potencialmente contaminadas e exigem rigor no manejo. São matrizes instáveis, sujeitas à degradação microbiológica e enzimática, microrganismos presentes liberam nucleases que degradam o DNA/RNA, comprometendo o material genético original e a sensibilidade dos ensaios. A primeira medida é estabilizar a amostra. Quando há previsão de processamento rápido pelo laboratório, recomenda-se refrigeração (2–8 °C), reduzindo a atividade microbiana e enzimática. Quando o processamento fortardio (após 72h, por exemplo), o congelamento (−20 °C ou inferior) é indicado para preservar os ácidos nucleicos. Contudo, deve-se considerar que o congelamento pode reduzir a viabilidade de microrganismos em amostras destinadas a cultivo microbiológico. Além disso, ciclos repetidos de congelamento e descongelamento devem ser evitados, pois promovem degradação adicional e podem levar à perda de material detectável, aumentando o risco de resultados falso-negativos.


DNA/RNA extraídos: após a extração, DNA e RNA apresentam maior pureza, mas seguem suscetíveis à degradação, sobretudo o RNA, que é sensível a RNases e variações térmicas. RNAs extraídos podem perder estabilidade ao longo do tempo, o que, para a RT-qPCR, reflete-se em aumento dos valores de CT. O DNA é mais estável, mas também requer cuidados. Para a maioria dos laboratórios de diagnóstico, −20 °C é suficiente; já −80 °C, mais aplicado em pesquisas científicas, é indicado para o armazenamento prolongado. Deve-se evitar ciclos de congelamento/descongelamento.


Reagentes químicos e biológicos: enzimas, como as polimerases e as transcriptases reversas, são sensíveis a variações de temperatura e podem perder atividade fora das condições ideais. A temperatura de armazenamento deve seguir as recomendações do fabricante, sendo −20 °C frequentemente indicado. Kits mantêm seu desempenho apenas quando essas condições são respeitadas. O fracionamento em alíquotas individuais é uma prática recomendada para evitar ciclos repetidos de congelamento e descongelamento e reduzir riscos de contaminação, preservando a estabilidade e a confiabilidade dos resultados.


Boas práticas que sustentam resultados confiáveis

A confiabilidade dos resultados depende do monitoramento contínuo de temperatura e da gestão de estoque por validade (primeiro que entra, primeiro que sai), com registros e verificações periódicas. Durante o preparo de PCR, alguns reagentes devem ser mantidos em gelo para preservar a atividade enzimática.

Freezers domésticos do tipo frost-free devem ser evitados, pois seus ciclos automáticos de degelo geram oscilações térmicas que podem comprometer a estabilidade de reagentes e ácidos nucleicos. Em contrapartida, freezers laboratoriais oferecem maior estabilidade e controle, atendendo aos requisitos de qualidade e rastreabilidade.

No diagnóstico molecular, a precisão depende da consistência dos processos. O armazenamento adequado é etapa crítica e influencia diretamente a confiabilidade dos resultados, antes mesmo da análise.


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