Dinâmica epidemiológica do IBDV: a emergência global da cepa chinesa A2dB1b

A disseminação transcontinental da variante emergente do vírus da doença de Gumboro (IBDV), classificada como genótipo A2dB1b, tem despertado crescente atenção na avicultura industrial. A linhagem tem demonstrado capacidade excepcional de dispersão, com detecções documentadas na Ásia, no Oriente Médio e na América do Sul, onde frequentemente sobrepõe-se aos genótipos locais.

Por outro lado, a caracterização dessa variante tem reforçado a importância da classificação baseada na análise de sequências dos segmentos genômicos A e B de IBDV. A designação A2dB1b, frequentemente referida como novel variant IBDV (nvIBDV), reflete a informação conjunta dos dois segmentos (1):


Segmento A: que codifica a proteína do capsídeo VP2 e contém os principais determinantes de antigenicidade e virulência, pertence ao genogrupo A2 (variantes ant), mais especificamente à linhagem d - A2d. 

Segmento B: que codifica a proteína VP1, envolvida na replicação viral, as diferenças genéticas em relação às cepas clássicas levaram à subdivisão do genogrupo B1 em B1a (clássicas) e B1b (agrupa as novas “variantes chinesas”).


Evolução e disseminação global

Identificada inicialmente na China por volta de 2015, a variante A2dB1b emergiu a partir de linhagens norte-americanas introduzidas na Ásia na década de 1990, que acumularam alterações genéticas que culminaram em epidemias observadas na década de 2010. Desde então, sua disseminação tem evidenciado a natureza global (2, 3):

Ásia: após sua identificação na China, a variante disseminou-se para países como Malásia, Coreia do Sul e Japão, favorecida pelo comércio de aves vivas e produtos avícolas.

Oriente Médio e África: em 2023, foi detectada pela primeira vez fora da Ásia, inicialmente no Egito, expandindo-se para Jordânia, Líbano, Israel, Iraque e Emirados Árabes Unidos.

América do Sul: a Argentina confirmou a presença da variante em 2020, sugerindo introdução transcontinental a partir da China. Sua detecção no continente reforça o alerta para o risco de disseminação em outros importantes países produtores de aves, incluindo o Brasil.


Manifestação clínica e impacto patogênico

Diferente das cepas muito virulentas (A3B2), que causam alta mortalidade aguda, a cepa A2dB1b associa-se a quadros de infecção subclínica, com principal impacto sobre a bursa de Fabricius, importante órgão linfoide das aves, causando imunossupressão. Essa condição é particularmente insidiosa, pois pode passar despercebida no campo enquanto compromete a resposta a outras vacinações (como IBV, por exemplo) e predispõe a infecções secundárias, o que eleva a morbidade e a mortalidade indireta do lote. 

Do ponto de vista econômico, o impacto da A2dB1b está associado à redução no ganho de peso corporal e à piora da conversão alimentar, uma vez que a ave redireciona energia para o combate a infecções e sofre as consequências metabólicas. 

Também é importante notar que, embora a infecção por A2dB1b seja tipicamente subclínica, eventos de rearranjo genético (como o genótipo A2dB3, que combina o segmento A da variante "novel" com o segmento B característico de cepas muito virulentas) podem aumentar significativamente a patogenicidade (1).


Desafios no controle e vacinação

O maior desafio imposto pela A2dB1b reside em sua divergência antigênica, ao contrapormos patogenicidade/mortalidade. Estudos indicam que as vacinas comerciais atualmente disponíveis (baseadas em cepas clássicas ou muito virulentas) oferecem apenas proteção parcial, com taxas que variam de 40% a 80%. Mutações específicas na proteína do capsídeo (VP2), particularmente nos resíduos 318D e 323E, funcionam como mecanismo de escape, permitindo que o vírus encontre vácuo imunológico nos protocolos de vacinação tradicionais. Pesquisas recentes com vacinas homólogas, por outro lado, sugerem proteção completa contra o desafio dessas novas variantes (4).


Perspectivas para o monitoramento

A emergência da cepa A2dB1b reforça a necessidade da vigilância epidemiológica molecular contínua e padronizada, baseada na caracterização de ambos os segmentos genômicos (A e B), para monitorar a evolução e a disseminação do vírus. A transição epidemiológica observada em países vizinhos como a Argentina, onde a variante começou a substituir genótipos locais como o A4B1, que caiu de 80% para cerca de 22% de prevalência nas amostras estudadas (4), ilustra um claro fenômeno de "turnover" viral, acendendo alertas para o risco iminente de disseminação e substituição de cepas em outros territórios, em especial o Brasil. A detecção precoce e a adaptação das estratégias vacinais são importantes para mitigar os prejuízos econômicos e manter a biosseguridade da cadeia avícola diante dessa nova dinâmica viral.


Vigilância epidemiológica molecular na Simbios

A Simbios Biotecnologia, que há décadas atua como referência no estudo do Vírus da Doença de Gumboro (IBDV), disponibiliza a modalidade de sequenciamento do segmento A (VP2) associado ao sequenciamento do segmento B (VP1), o que permite o refinamento necessário para a vigilância epidemiológica molecular diante da nova demanda representada pela disseminação transcontinental da cepa A2dB1b. 

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